A cama de ópio é uma mobília chinesa, das antigas, feitas de madeiras resistentes ao tempo. Apanhei a minha debaixo de uma casa que ruíra na Taipa, uma ilha ao largo de Macau. Estava coxa e, quando a tirei, ficou um pé debaixo dos escombros. Veio para esta terra onde permaneceu numa caixa indiana de alumínio, as peças numeradas depois de lavadas por mim. Talvez por dez anos , não viu luz, guardada na cave da minha mãe.

Depois de muito pedir, o Álvaro carpinteiro lá concordou em a levar: faria o trabalho à medida que tivesse tempo, nas horas de espera entre as lacagens dos vários armários que o ocupavam. Telefonou-me ao fim de um mês, ia fazer a prótese e queria que eu escolhesse a madeira. Entregou-ma orgulhoso duas semanas depois, dizendo que o sistema de encaixe das peças era perfeito, mas que as cozinhas lhe pagavam a vida, a da filha e da mulher. Estava linda, porque eu só a queria de pé outra vez, sem verniz, sem ser reposta uma juventude injustificada.

De quarto em quarto, pesada e difícil, está finalmente comigo, na minha cozinha onde faço barros, cozinho, dou jantares e faço comida. Ao redor discute-se, fazem-se planos caso o número da sorte calhe, faz-se amor, criam-se filhos.

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